Dia 22: A grande familia

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 22 : San Martin Del Camino / Astorga

 Às 6h00 eu já estava no caminho. Amanheceu um pouco frio, mas logo depois que o sol nasceu já esquentou.

Fiz um teste e foi o primeiro dia que comecei a caminhar com as sandálias. As sandálias são mais confortáveis para os pés, mas não sabia como seria caminhar mais de 25 km e com as duas bolhas na planta do pé. Além disso havia chovido bastante na noite anterior e havia um possas da água no caminho, e se molhar os pés com as sandálias logo teria que parar e calçar novamente as botas. O problema da bolha na planta do pé e que não há como andar sem tocar nela. A Bolha do pé esquerdo já estava boa, mas a do pé direito ainda incomodava bastante. Procurei andar bem devagar. Piano piano, como dizem os italianos…

Depois de 6 km tinha a primeira parada numa cidadezinha chamada Hospital de Orbigo. Parei para tomar um café, e logo em seguida entrou uma amiga peregrina que eu tinha iniciado caminho comigo, feito a primeira etapa de Saint Jean a Roncesvalle. Ela se chamava Adrianka, é da Croácia. Conversamos um pouco e ela perguntou como estava meus pés e logo já me deu dois curativos, na verdade ela tinha um arsenal anti bolhas, com todos os instrumentos necessários, medicamentos e todos os tipos de fita, band-aid etc. Coloquei o curativo nos pés e me sentir melhor, e voltei a caminhar.

O trecho até Astorga era muito plano, e próxima a rodovia. Antes de chegar Astorga, havia uma subida muito forte e na sequência uma cruz que ficava no Alto da montanha e de lá se via Astorga e um vale muito bonito.

Segui o caminho e cheguei em Astorga a 1h da tarde.
O sol estava muito quente, e percebi que andar com sandálias é mais difícil e também um pouco mais lento. Pelo menos para mim!

Fiquei no albergue servas de Maria, albergue municipal cuidado por hospitaleiros, que trabalhavam gratuitamente. O valor de cinco euros para dormir. Segui a rotina do dia, que chamo de lere lere! Rs

O albergue tem uma estrutura muito boa. Sairia para conhecer um pouco Astorga, mas o sol muito quente e preferi ficar tomando uma cerveja.

No final da tarde caiu uma chuva muito forte e assim não pude conhecer totalmente a cidade. A verdade é que a gente chega tão cansado, que apesar dos atrativos a gente não tem vontade alguma de caminhar.

A questão das bolhas ainda me incomodava, então foi numa farmácia e conversei com uma farmacêutica e ela disse que da forma como minha bolha estava eu já poderia usar o compeed! É um curativo bem interessante a base de silicone mas só pode ser colocado quando começa ficar vermelho, ou quando a bolha já estiver sem água. Como estava drenando todos os dias da minha bolha ela achou que eu já poderia colocar o compeed para caminhar.
No Albergue encontrei um brasileiro que havia conhecido no caminho que me chamou para jantar com todos os peregrinos. Fomos à cozinha e era uma festa! Todos os tipos de idiomas tornavam o ambiente muito familiar. A mesa era grande, sentei já fiz amizade com os peregrinos. Uma menina da Romênia havia feito uma espécie de Galinhada, era meio que um risoto e uma Galinhada, mas muito saborosa! Estavam juntos uma menina americana e um russo, além de mim e o outro brasileiro!

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Foi uma grande festa, como é legal todas as culturas sentadas a mesa, e mesmo as pessoas que não falavam o inglês ou espanhol se conseguiam se comunicar. Todos que já haviam comido ofereciam para compartilhar os pratos, Um ambiente sensacional. Demos muitas risadas. Fui dormir com sentimento de uma grande família. Uma grande comunidade.

Dia 21: O retorno

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 Dia 21 : Leon / San Martin Del Camino

 As 5h30 da manhã eu já estava de pé! Estava ansioso por voltar a caminhar, e queria saber como ficariam as bolhas dos dois pés. Deixei Leon ao amanhecer, e como é uma cidade grande, demorei cerca de 1h e 1/2 para atravessa-la.

Graças a Deus consegui caminhar bem, e vim refletindo sobre as leituras dos últimos dias que fala sobre a necessidade do perdão, de não pagar o mal com o mal. Ao contrário orar pelos inimigos e se alguém te fizer mal, não retribuir na mesma moeda, desejar o bem para ele e rezar por ele. Essas palavras ficaram no meu coração o caminho todo, vim refletindo sobre elas, e sobre as pessoas que um dia me fizeram mal, ou me magoaram, se ainda não consegui perdoar ou se não consigo rezar por elas. Algumas vieram no meu coração, deixei algumas pedras no caminho simbolizando que não queria, e não iria carregar mais aquela mágoa comigo.

Depois de 11 km de caminhada parei para trocar as meias, porque meias secas são melhores para não piorar as bolhas. Caminhei mais uns 5 km e a bolha do pé direito começou a incomodar mais. Parei no meio do caminho e troquei as botas pela Papet.  Percebi que era melhor caminhar com elas, pois pressionava menos as bolhas. Meus pés “chatos”, que adoram uma havaiana agradeceram! rs

Pendurei minhas botas lado de fora da mochila, mas no meio do caminho uma japonesa também peregrina passou por mim e disse que as botas estavam atrapalhando a minha caminhada, porque ao andar elas balançavam e faziam com que eu perdesse energia na caminhada. Segui o seu conselho, e guardei as botas dentro da mochila, no compartimento separado, e de fato ficou muito melhor a caminhada rendeu mais e a mochila se acomodou melhor nas minhas costas. Mais uns 5 km adiante quase chegando no meu destino, parei para comprar umas frutas e tomar suco de laranja porque o sol já estava quente.

Ao sair da tenda encontrei a japonesa, chamava-se Tomoco, ofereci a ela uma nectarina e agradeci pela dica que me ajudou muito na caminhada. Andei mais 5 km cheguei ao meu destino depois de andar 27 km. Fiquei no albergue Santana,  bem bacana, segui a rotina do dia e fui à missa, uma igreja simples mas como imagem linda de nossa senhora do caminho.

Jantamos todos os peregrinos juntos uma deliciosa Paella, e depois fui dormir com o sentimento de gratidão a Deus por mais um dia de caminhada

 

Dia 20: Leon – Turismo e fé

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 Dia 20 : Leon

 León é uma cidade muito, mas muito linda.

Hoje com maior tempo, pude visitar alguns lugares, passear pelas ruas dentro do cento histórico que é cercado por uma muralha.

O ponto alto sem dúvida nenhuma, é a Catedral, uma das mais belas catedrais do mundo.

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Construída no século XIII, e em apenas 50 anos. É de estilo gótico, em formato de cruz, Com a nave central com 90 m de comprimento, e as nave menores com 30 m, e altura de 30 m. A riqueza de detalhes dos vitrais e algo que nos deixa boquiaberto. Não dá para descrever, e creio que as fotos que vou postar aqui também não conseguem traduzir tamanha beleza dessa construção.

No final do dia, fui à missa na própria Catedral, na capela Sagrado Coração de Jesus. Lá havia uma imagem de Nossa Senhora com Jesus nos braços, que também é maravilhosa.

E a leitura do dia, e a homilia do dia foi totalmente relacionada aquilo que quero trabalhar no meu coração nas próximas etapas do caminho: O verdadeiro perdão. Coloco aqui alguns trechos do Evangelho e da homilia de hoje que retratou melhor aquilo que estou dizendo.

Dia 19: Um dia de descanso em Leon

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 Dia 19 : Leon

 Novamente acordei cedo. Vida de peregrino é assim mesmo. A gente acostuma acordar cedo, ainda mais que outras pessoas que dividem o quarto com você também acordam.

Tomei café com Alice e com Willem, brincamos demos algumas risadas, e como eu iria sair mais tarde, estava bem tranquilo. Quando foi se despedir de mim, o Wilhelm me abraçou e disse “ Eu tenho certeza que você que você vai caminhar e chegar até Santiago de Compostela, definitivamente “ não teve como não chorar!
A Alice foi a última a sair e também ao abraça lá chorei!
Depois que todos saíram, arrumei as minhas coisas e fui até o ponto de ônibus. Chegando lá encontrei um senhor e perguntei que horas o ônibus passaria. Ele respondeu que em 30 minutos mais ou menos. Fiquei esperando, mas cinco minutos depois, para um carro com uma mulher dirigindo e esse senhor entrou no carro. Eles conversaram, E a mulher saiu do carro e me ofereceu carona até Lion. Fiquei até assustado com tanta gentileza, imagina só, sou estrangeiro, estranho a ela, com mochila nas costas, Sticks e ela oferece carona!
Novamente me emocionei. No caminho ela me perguntou onde queria parar, eu disse que algum lugar que pudesse me orientar sobre as bolhas, porque queria ter certeza que estou fazendo tratamento correto. A viagem não demorou 10 minutos porque estava muito perto. Chegando em Lyon ela parou o carro e me disse que o senhor estava acompanhando queria me mostrar aonde era ambulatório, tinha pessoas que me ajudaria. Naquele momento, eu dei a ela um terco de Nossa Senhora Aparecida, e agradeci muito a gentileza que ela tinha feito . Senti que ela também ficou emocionada e me agradeceu o presente, solidariedade passe a frente.

Fui até o ambulatório e lá eles não poderiam me atender , Então fui a uma farmácia, porque muitos farmacêuticos já estão acostumados a tratar e ver bolhas, o farmacêutico que me atendeu disse que minhas bolhas eram grandes mais normais, que não tinha infecção, e que o tratamento seria ao cuidado de infecção e descanso. A partir daí procurei um hotel, próximo à Catedral, no centro da cidade, para poder andar menos conhecer os lugares turísticos. E foi muito legal, porque encontrei praticamente todos os amigos que conheci durante o caminho. Encontrei a Jodie, o Leo, Claude, Richard e outros que reconheço mas não sei o nome! A toda hora era um hello, Hi, Hola! enfim foi uma festa à tarde. E também fiz amigos novos! Pela primeira vez almocei e jantei, tomei umas boas cervejas, muitas risadas enfim curti!


Fiz uma siesta e as 20:00 fui à missa na igreja de São Marcelo, tinha um altar lindo uma imagem de Maria maravilhosa!! Me chamou muita atenção! Tocou!!  Era Maria chamando para descansar, como em Corrion de Los Condes!


Também tinha um altar com Jesus crucificado feito em 1600!  E muito me chamou atenção também! Fiquei orando ajoelhado em frente à ele! Tem alguns altares e imagens que me atraem muito!! E olha o tema da missa : o Perdão!

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Deus falando comigo novamente através da palavra!
Que maravilhoso é nosso Deus! E que benção ter Maria como nossa mãe!

Dia 18: Sabedoria e Prudência

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 Dia 18 : El Burgo Ranero / Archueja

Estou gravando essa nota um dia depois desse trecho! E para não ficar confuso, vou voltar um pouco atrás! Cheguei em El Burgo Ranero com 2 bolhas, nos 2 pés, e no mesmo lugar, entre o dedão e primeiro dedo pequeno! Um local ruim pois nada cola ali, nem o compeed, nem outro curativo! A bolha do pé esquerdo já estava grande e do direito bem pequena! Fiz o tratamento que sabia, desinfetei, furei com agulha, passei a linha, cortei a linha deixando o dreno, passei álcool iodado, e deixei secar no sol, sem usar sapato! Estavam doloridas, mas a dor era suportável!  Assim, Levantei as 5:30 e as 6 já estava na cafeteria para tomar o café! Lá logo na entrada, havia um verso de um poema de Antônio Machado: “Caminhante: não existe caminho! O caminho se faz ao caminhar “. Muito legal e profundo! Tirei uma foto e segui o caminho!

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Essa etapa eram mais 31 km de caminhada! A paisagem não alterava, pois estávamos atravessando a “Masseta” que é como se chama esta região! Como um deserto da Espanha! Ela se iniciou a umas 5 etapas atrás! Muito plana e seca!

Tirei fotos do pôr do sol, rios, de alguns marcos do caminho e seguia num bom ritmo! Já em mais da metade da etapa após oração, comecei a ter alguns sentimentos de raiva, vingança e ódio de algumas pessoas que passaram pela minha vida, diversas fases, diversos momentos. Refletindo sobre esses desejos, esses sentimentos entendi que todos eles tinha uma raiz comum, que eram mágoas ou ressentimentos, por traições  ou ações injustas que as pessoas tinham feito contra mim! Enfim, mágoas e ressentimentos era a raiz de tudo.

Eu confesso que eu tenho uma coleção delas talvez aí uma plantação de pequenas e grandes de diversos tamanhos e formas. Se elas estão lá é porque de uma certa forma eu estou as cultivando. Pedi então a Deus. Que me Curasse e que eu realmente quero ceifar essa plantação, arrancar todas essas árvores de mágoa e ressentimento e dar essa terra para cultivar outros sentimentos, De amor, de perdão, e assim, começar de novo, olhar a vida com mais leveza! Sem pesos, desnecessários! Neste momento, lembrei de uma das freiras do albergue de Santa Maria pela Vitória, que disse “maior peso que carregamos não está na mochila, e sim no nosso coração“

Segui o Caminho pedindo a Deus que durante o caminho me ajudasse as ceifar a plantação sentimentos ruins e cultivar o terreno no meu coração para sentimentos bons, leves e edificantes!

Já era quase meio dia eu ainda estava a 8 km do meu destino planejado! Sol já estava bastante quente, e as duas bolhas dos dois pés começaram a doer muito, pois estava caminhando no asfalto bem quente, que piorava a situação. e eu continuei caminhando e a cerca de 4 km da cidade onde ia ficar, sentir que algo mudou no meu pé direito, já não sentia mais a bolha, mas uma dor mais espalhada. Ela com uma bolha tivesse estourado. Como já estava perto, diminui o passo, e seguir o caminho até o albergue. Chegando lá fui tirar as botas e percebi que de fato a bolha tinha estourado mas não pra fora para os lados, ou seja, ela tinha espalhado para uma área maior chegando até a junção dos dedos. A bolha do pé direito também havia crescido.

Novamente fiz o ritual de limpeza e desinfecção, furar, passar da linha e por fim álcool iodado! Estava doendo muito, mas a dor estava suportável coisa de peregrino!

No albergue, encontrei pessoas de mais idade, um alemão que eu não recordo nome, um holandês chamado Vilhem e uma porto-riquenha chamada Alice!  Eram pessoas muito especiais, de mais idade e que tinha muita experiência de vida, no caminho e de caminhar.

O Holandês contou-nos que ele está fazendo o caminho desde a casa dele na Holanda, e que ele já completou 2600 km de caminhada. Até Santiago irá completar  quase 2900 km. Contou-nos um pouco da vida dele, compartilhou suas histórias, suas viagens. Uma pessoa interessantíssima, amável, forte e muito determinada!

A Alice é um doce de pessoa, já era a quinta vez que ela estava fazendo o caminho, mas ela fazia em diferentes etapas. Ela deu várias dicas de albergues, restaurantes, e trechos do caminho que não poderiam ser perdidos. Quando comecei contar a eles a minha história e mostrei as duas bolhas que tinha no pé, Alice começou com muita doçura a recomendar para eu parar um pouco, e descansar os pés. Que isso também é uma forma de entrar em contato comigo mesmo, E de curtir o Caminho. Ela disse “ viver o caminho, é respeitar e honrar seu corpo e entrar em contato com seus sentimentos e emoções “ apesar de eu poder continuar o caminho ela disse que as bolhas poderiam piorar, e acabar com meu com o Caminho. Sugeriu que eu ficasse em Leon, relaxar e curtisse a cidade que é muito linda e depois voltasse ao caminho. Quando eu disse que se desse, gostaria de passar o meu aniversário com minha família, pois já estava sentindo muitas saudades, ela respondeu “aniversário, dia dos pais, dia das mãe, Natal, são todos os dias, quando  vc está em casa pleno, com sua família e feliz celebrando a vida” e completou” vc está a 8 km de Lyon, tire 2 dias para relaxar seus pés, e amanhã vai de ônibus” para que o esforço de ir a pé ?”

Confesso, que os argumentos dela e a forma como ela falou com tanta doçura me convenceu naquele instante, eu resolvi parar em Leon e ficar dois dias descansando. Ela me deu um abraço tão carinhoso, que ambos começamos a chorar. O Caminho nesse dia, me deu uma mãe afetuosa, carinhosa e que deu conselhos de vida, e um pai aventureiro, forte, determinado.

Agradeço a Deus por ter conhecido essas pessoas e eles fizeram parte da minha vida e do meu caminho

Beijo

Dia 17: Transmutação

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 Dia 17 : Morantinos / El Burgo Ranero


O dia de hoje Foi muito intenso, fisicamente e emocionalmente, que fica difícil descrever.
Às 6h00 da manhã já iniciei a caminhada, porque eu tinha 30 km pela frente. Mas já amanheci meio mexido, desde que deixei a igreja Santa Maria pela Vitória em Corrion de Los Condes.

Não consegui dormi muito bem a noite, e ao iniciar no caminho já senti uma forte emoção. É difícil descrever o que a gente sente nesses momentos, são momentos de solidão, de stress físico que te faz entrar em contato com suas dores emocionais. E olha que já foram mais de 420 km de caminhada. Nessa etapa passei pelo portal que marca a metade do caminho!
Comecei a lembrar da minha infância, minha adolescência, minha juventude e de pessoas e fatos que foram marcantes em todos os sentidos.  Tanto de dor quanto de alegria. Veio em meu coração um mix de sentimentos que estavam congelados a muitos anos, fatos que eram doloridos mas que tudo bem até então, fatos do que eu tinha conhecimento mas que não tinha ainda tomado a total consciência. Entendo que o conhecimento fica na mente, é narrado, pensado e dito. A consciência é endo, interna, e sentida! E a consciência dos sentimentos me fez por várias vezes chorar durante o caminho.

Determinado momento eu colhi uma flor da cor violeta, que significa Transmutação, carreguei lá comigo e rezei o terço carregando essa flor. O que eu queria era transformar Todos aqueles sentimentos em algo bom, em amor.


Fui deixando várias pedras pelo caminho que simbolizavam sentimentos, pessoas, os fatos que não eram bons e que eu queria deixar para trás. E e no lugar desses fatos queria plantar uma flor, que uma flor nascesse representando o próprio amor, o amor da história, o respeito por tudo que aconteceu e a transformação de tudo em algo bom. Pois de fato isso aconteceu na minha vida, independente dos fatos que não foram bons, a minha vida é muito boa! E tudo que eu tenho, tudo que eu sou, eu agradeço porque é muito bom!


Chegando a 10 km do meu destino, encontrei uma ermita, Que é uma pequena capela, consagrada a nossa senhora. Entrei nessa capela e não teve como conter as lágrimas, chorei muito e agradeci a oportunidade ter vivido tudo isso. E entreguei a flor no altar de nossa senhora junto com outras flores. A imagem de nossa  senhora com o manto azul com as mãos abertas  em direção a mim, E com Rosário na mão consagrou a Deus todos sentimentos que eu havia vivido, E me deu a benção para seguir em paz.

Dali pra frente o 10 km de caminhada, foram de oração, de gratidão e uma música veio ao meu coração: Let it be!! do Paul Mackartney!
Fui cantando até chegar à cidade que pretendia!

Dia 16: Mais caminhada e oração

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 Dia 16 : Carrion de Los Condes/ Morantinos

A noite de sono foi muito boa. O albergue é bem bacana, a gente sente o cuidado que as freiras tem conosco! E o valor pago é apenas 5 euros, é de graça por tudo que recebemos. Num lugar como esse claro que dormi bem, e logo de manhã às 4h30 já estava acordado.

Impressionante como é rotina de um albergue às 22:00h praticamente todos dormindo e a partir das 4h00 a gente já começa a ouvir as primeiras movimentações daqueles que acordam bem cedo para caminhar. Com os barulhos eu acordei. Mas fique um pouco mais na cama até as 5h40 quando meu despertador tocou, sai da cama, me aprontei rápido e as 6h10 já estava tirando a primeira foto do dia em frente à igreja de Santa Maria.

Essa igreja marcou meu caminho porque como disse ontem eu me senti muito bem, foi como um convite que Nossa Senhora fez para que eu ficasse naquele lugar, naquela cidade e também naquele Albergue. Quis tirar novamente uma foto antes mesmo do dia amanhecer.

Como não havia café da manhã no albergue, Fui procurar 1 bar pra comer um bocadilho, um suco de laranja e um café. Mas não havia nenhum bar aberto, então resolvi seguir o caminho com aquilo que tinha na mochila, 3 pêssegos e uma nectarina.

Na saída da cidade tinha um bar aberto, mas não tinha bocadilho, tomei apenas um expresso! Lá Encontrei Jodie, e iniciamos o caminho juntos.

A próxima cidade estava a 16 km de Carrion de los Condes, e não havia nenhuma cidade ou vilarejo nesse trecho. Então seria uma puxada de mais 3h00 de caminhada. Depois de uns 30 min me distanciei da Jodie para seguir meu caminho, e começar a orar!
O trecho era bem plano, uma só reta onde a gente caminhava, caminhava, e caminhava….

É interessante que nessa etapa do caminho a gente começa a entrar em contato com nosso mundo interior. Eles dizem que os primeiros 10 dias do caminho é um esforço físico, etapa física. Os próximos 10 dias é a parte mental em dupla emocional. E os últimos 10 dias é o emocional e espiritual. Como estou exatamente no meio do caminho comecei a perceber hoje que a dor física já não me incomoda mais, a mochila parece que já faz parte do meu corpo. Os pés sim incomodam, mas apenas depois de 20 km de caminhada! Então contato com o emocional começa a ser mais forte, nas orações aparecem todas as situações que nos incomoda, as dores, saudades e aquilo que você gostaria de mudar, de deixar para trás. Assim foram 3h20 de caminhada.

O dia estava muito ensolarada o amanhecer foi lindo e às 10h00 o sol já estava forte. Ainda bem que nossa senhora ontem me convidou pra ficar em Carrion de Los Condes, por que não seria fácil andar esses 16 km com sol do meio dia…

Comentei mais tarde isso com Jodie , e ela disse “ Deus cuida muito de você e Nossa Senhora sempre esta ao seu lado.”
No primeiros 12 dias do caminho só enfrentei chuva, lama, possas da água e nuvens. Agora o tempo virou e será mais sol. E caminhar no sol forte não é nada fácil!
Nas minhas orações, muita emoção e muita conversa com Deus, colocando pra ele todas as situações que me incomodam o que eu quero deixar pra trás na minha vida!
A Nathy veio muito forte nas orações e eu pedi as bênçãos e a orientação de Deus na vida dela, e que Maria também sempre a acompanhe e oriente. Meus filhos e minha esposa sempre vem nas minhas orações, são as bençãos em minha vida que Deus me concedeu.
Parei na cidade Calzadilla de la Cueza, comi uma tortilha com suco de laranja e segui minha viagem. Na etapa final encontrei Jodie novamente e chegamos juntos a Morantinos, que era meu destino no dia!

Bom que ela recebeu uma recomendação de um albergue que é muito bom, um albergue de um italiano com uma estrutura, com um grande jardim e uma fonte de água fria para a colocar os pés!

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Após 31 km de caminhada, não deu outra, pés na água fria! rs

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Dia 15: Um dia marcante com Nossa Senhora

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 Dia 15 : Fromista / Carrion de Los Condes

Hoje, dez pra seis já estava de pé e às 6h20 estava no caminho, antes mesmo do sol nascer já estava com o pé na estrada. Despertei hoje com vontade de ficar sozinho e falar bastante com Deus, entrar contato comigo mesmo.

Caminhei o tempo todo assim, 22 km,  eu e Deus! O dia amanheceu lindo sem nenhuma nuvem no céu em um caminho reto e sem subida, relativamente fácil de se caminhar.

O caminho hoje se resume em oração! Maravilhoso quando nós conseguimos entrar em contato com nós mesmos, com as nossas dores, com as nossas alegrias e louvando, agradecendo e pedindo a Deus sempre.

Hoje não tenho muito que falar porque foi muito sentido o tempo todo andei num ritmo bom e como o caminho favoreceu as 11h00 eu estava já em Carrion de Los Condes e já havia percorrido 20 km.

Quando cheguei na cidade pensei em andar mais 16 km até a próxima cidade que tem albergue. Mas resolvi entrar numa igreja… nem vi o nome simplesmente entrei. E a sensação que eu tive foi tão boa, mas tão boa! Havia um altar lindo com sacrário iluminado, uma imagem linda de Nossa Senhora, e também o altar de São Miguel Arcanjo meu anjo protetor. Eu orava e contemplava o todo tempo. Tive sono e quase dormi no banco da igreja. Relaxei, tirei o sapato, deixei a mochila de lado , e fiquei num estado contemplativo e muito interiorização, que me fez sentir tão bem, mas tão bem que decidi permanecer na cidade! Ali fiquei por quase uma hora. E quando sai já era meio dia e 10.

Na praça ao lado da igreja, sentei comi um lanche, tomei água e fui procurar albergue. Mas para minha surpresa ao lado da igreja de Santa Maria havia um albergue de Santa Maria, que era o melhor da cidade. Esse albergue era cuidado pelas freiras que faziam com todo carinho a preparação do albergue a receptividade dos peregrinos. Tratou todos nós com muito carinho. O Albergue é muito bem cuidado e ali fiquei.

Para minha surpresa na fila do albergue atrás de mim depois de cinco minutos chegou Jodie. Americana que é minha amiga e que nos despedimos em Burgos achando que nós não iríamos encontrar mais. Foi uma grande felicidade encontra- lá! Encontrei também uma brasileira de Florianópolis. La fizemos amizades, dividirmos os custos para lavagem e secagem de roupa, porque quando em três fica bem barato lavar e secar e nos permite ter mais tempo para relaxar. Fomos tomar uma cerveja e almoçar e depois fomos da missa.

A missa na igreja de Santa Maria é muito linda, as freiras cantavam ao som de um violão que tocavam, músicas em espanhol que eu não entendi a letra mas que fazia todo sentido em nosso coração e de todos os peregrinos.

Ao final, recebemos uma benção especial dos peregrinos, e uma benção de santa Maria da Vitória, ou Santa Maria do Caminho como é conhecida essa imagem nessa igreja: é uma imagem do século XI, construída toda em pedra para oração e aos peregrinos no caminho.

Um dia intenso de oração e espiritualidade, de vivência e de contato com Deus.

Um dia pra marcar na nossa vida e história, de uma forma muito gostosa. Um beijo

Dia 14: Natureza Deslumbrante

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 Dia 13 : CastroJeriz / Fromista

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O dia hoje amanheceu maravilhoso!

Eram 6h30 e não tinha uma nuvem no céu e o céu muito azul.

Foi o primeiro dia do caminho onde não houve chuva, e nem nuvens o tempo nublado.

Realmente foi um dia muito lindo, o céu o azul contrastava com a vegetação verde de várias tonalidades, e também as flores vermelhas, amarelas, azuis, violetas e rosas.

Sai de Castrojeriz que fica no alto de uma colina e descemos pelo Vale Longo, muito comprido e logo em seguida voltamos a subir a colina com o sol nascendo… o céu azul sem nuvens e o Vale visto da colina era uma visão deslumbrante!

Subi bem devagar apreciando cada passo do alto da colina, tirei algumas fotos numa visão panorâmica que ter uma noção muito boa da beleza que eu vi ali de CastroJeriz ao amanhecer.

Logo depois veio uma descida acentuada de novo uma caminhada longa pelo vale. Parei no meio do caminho para tomar um café e comer um bocadinho, mais logo segui em frente. Apesar do sol, o tempo não estava quente e a temperatura estava muito agradável, e fez com que a caminhada fosse leve, calma e muito agradável.

Passando pela cidade de Boadillo del Camino, havia uma festa do padroeiro daquele provado que era Santo Antônio. Participamos um pouquinho da festa, e é muito engraçado porque são muito poucas pessoas que vivem lá e havia uma banda de três pessoas, de três músicos, e as pessoas caminhando em direção à igreja.

Entrei na igreja encontrei uma surpresa : uma pia batismal romana do século XI. E a igreja também datava do século XI uma igreja muito bonita.

Como estava com bastante disposição segui viagem até Fromista, adiantando 6 km do meu trajeto original, do meu planejamento original. Segui e cheguei em Fromista às 2h00 e seguir a rotina banho, lavar roupas, a um almoço/jantar, falar com a minha família amada e ir dormir.

Em resumo nesse dia melhor do que texto, as fotos retratam com mais fidelidade toda beleza do caminho! Um beijo

Dia 13: Muitas flores e vinhos…

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 Dia 13 : Rabes de Las Calzadas / CastroJeriz

 Acordei com os sinos da igreja as 6:00h. O povoado era pequeno e o albergue ficava do lado da igreja!  O café foi servido às 6:39 e a Clementina, responsável pelo albergue, fazia torradas frescas e servia o café! Um albergue muito organizado e bem cuidado!

As 7:00 já com o pé na estrada. Coincidentemente um brasileiro que estava no albergue saiu junto comigo! Eu havia conhecido no jantar da noite anterior, e me chamou atenção porque chorou  muito na hora do jantar! Emocionado com o que vivenciou no caminho!

Começamos a caminhar juntos mas logo segui adiante para fazer minhas orações, e depois de uns 15 minutos, retardei o passo e começamos a conversar!

O nome dele é Emanuel, é de Salvador, e hoje trabalha com consultoria de gestão! Sua história é bem parecida com a minha, tinha deixado o trabalho há 7 anos e hoje é consultor!

Fomos conversando bastante durante o caminho! Uma pessoa bem interessante, culta e estudiosa!

O caminho estava com muito barro e trechos de estrada! Havia poucas cidades, passamos apenas por 2, e em Hontanas o parei para um café e ir na igreja !

Havia muitas flores, e fiz varios ramalhetes para Tania, pois é dia dos namorados!

Cheguei em Castro Jeriz as 14:00 h depois de 28km , parei no albergue Ultreia, muito legal!

Debaixo do albergue tinham galerias que são do século 11! Que hoje é uma adega!  Jantamos todos juntos e fomos visitar as galerias ! Ouvimos as histórias da época e fizemos e brindamos com vinho que estava sendo envelhecido!