Dia 18: Sabedoria e Prudência

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 18 : El Burgo Ranero / Archueja

Estou gravando essa nota um dia depois desse trecho! E para não ficar confuso, vou voltar um pouco atrás! Cheguei em El Burgo Ranero com 2 bolhas, nos 2 pés, e no mesmo lugar, entre o dedão e primeiro dedo pequeno! Um local ruim pois nada cola ali, nem o compeed, nem outro curativo! A bolha do pé esquerdo já estava grande e do direito bem pequena! Fiz o tratamento que sabia, desinfetei, furei com agulha, passei a linha, cortei a linha deixando o dreno, passei álcool iodado, e deixei secar no sol, sem usar sapato! Estavam doloridas, mas a dor era suportável!  Assim, Levantei as 5:30 e as 6 já estava na cafeteria para tomar o café! Lá logo na entrada, havia um verso de um poema de Antônio Machado: “Caminhante: não existe caminho! O caminho se faz ao caminhar “. Muito legal e profundo! Tirei uma foto e segui o caminho!

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Essa etapa eram mais 31 km de caminhada! A paisagem não alterava, pois estávamos atravessando a “Masseta” que é como se chama esta região! Como um deserto da Espanha! Ela se iniciou a umas 5 etapas atrás! Muito plana e seca!

Tirei fotos do pôr do sol, rios, de alguns marcos do caminho e seguia num bom ritmo! Já em mais da metade da etapa após oração, comecei a ter alguns sentimentos de raiva, vingança e ódio de algumas pessoas que passaram pela minha vida, diversas fases, diversos momentos. Refletindo sobre esses desejos, esses sentimentos entendi que todos eles tinha uma raiz comum, que eram mágoas ou ressentimentos, por traições  ou ações injustas que as pessoas tinham feito contra mim! Enfim, mágoas e ressentimentos era a raiz de tudo.

Eu confesso que eu tenho uma coleção delas talvez aí uma plantação de pequenas e grandes de diversos tamanhos e formas. Se elas estão lá é porque de uma certa forma eu estou as cultivando. Pedi então a Deus. Que me Curasse e que eu realmente quero ceifar essa plantação, arrancar todas essas árvores de mágoa e ressentimento e dar essa terra para cultivar outros sentimentos, De amor, de perdão, e assim, começar de novo, olhar a vida com mais leveza! Sem pesos, desnecessários! Neste momento, lembrei de uma das freiras do albergue de Santa Maria pela Vitória, que disse “maior peso que carregamos não está na mochila, e sim no nosso coração“

Segui o Caminho pedindo a Deus que durante o caminho me ajudasse as ceifar a plantação sentimentos ruins e cultivar o terreno no meu coração para sentimentos bons, leves e edificantes!

Já era quase meio dia eu ainda estava a 8 km do meu destino planejado! Sol já estava bastante quente, e as duas bolhas dos dois pés começaram a doer muito, pois estava caminhando no asfalto bem quente, que piorava a situação. e eu continuei caminhando e a cerca de 4 km da cidade onde ia ficar, sentir que algo mudou no meu pé direito, já não sentia mais a bolha, mas uma dor mais espalhada. Ela com uma bolha tivesse estourado. Como já estava perto, diminui o passo, e seguir o caminho até o albergue. Chegando lá fui tirar as botas e percebi que de fato a bolha tinha estourado mas não pra fora para os lados, ou seja, ela tinha espalhado para uma área maior chegando até a junção dos dedos. A bolha do pé direito também havia crescido.

Novamente fiz o ritual de limpeza e desinfecção, furar, passar da linha e por fim álcool iodado! Estava doendo muito, mas a dor estava suportável coisa de peregrino!

No albergue, encontrei pessoas de mais idade, um alemão que eu não recordo nome, um holandês chamado Vilhem e uma porto-riquenha chamada Alice!  Eram pessoas muito especiais, de mais idade e que tinha muita experiência de vida, no caminho e de caminhar.

O Holandês contou-nos que ele está fazendo o caminho desde a casa dele na Holanda, e que ele já completou 2600 km de caminhada. Até Santiago irá completar  quase 2900 km. Contou-nos um pouco da vida dele, compartilhou suas histórias, suas viagens. Uma pessoa interessantíssima, amável, forte e muito determinada!

A Alice é um doce de pessoa, já era a quinta vez que ela estava fazendo o caminho, mas ela fazia em diferentes etapas. Ela deu várias dicas de albergues, restaurantes, e trechos do caminho que não poderiam ser perdidos. Quando comecei contar a eles a minha história e mostrei as duas bolhas que tinha no pé, Alice começou com muita doçura a recomendar para eu parar um pouco, e descansar os pés. Que isso também é uma forma de entrar em contato comigo mesmo, E de curtir o Caminho. Ela disse “ viver o caminho, é respeitar e honrar seu corpo e entrar em contato com seus sentimentos e emoções “ apesar de eu poder continuar o caminho ela disse que as bolhas poderiam piorar, e acabar com meu com o Caminho. Sugeriu que eu ficasse em Leon, relaxar e curtisse a cidade que é muito linda e depois voltasse ao caminho. Quando eu disse que se desse, gostaria de passar o meu aniversário com minha família, pois já estava sentindo muitas saudades, ela respondeu “aniversário, dia dos pais, dia das mãe, Natal, são todos os dias, quando  vc está em casa pleno, com sua família e feliz celebrando a vida” e completou” vc está a 8 km de Lyon, tire 2 dias para relaxar seus pés, e amanhã vai de ônibus” para que o esforço de ir a pé ?”

Confesso, que os argumentos dela e a forma como ela falou com tanta doçura me convenceu naquele instante, eu resolvi parar em Leon e ficar dois dias descansando. Ela me deu um abraço tão carinhoso, que ambos começamos a chorar. O Caminho nesse dia, me deu uma mãe afetuosa, carinhosa e que deu conselhos de vida, e um pai aventureiro, forte, determinado.

Agradeço a Deus por ter conhecido essas pessoas e eles fizeram parte da minha vida e do meu caminho

Beijo

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