Dia 26: O trecho mais lindo do Caminho

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 26 : Trobadero / O Cebreiro

06693eec-697a-4beb-af29-f9dd9eeddca8 

Acordei bem cedo hoje novamente às 6h00 já estava no caminho. Essa etapa do caminho é muito linda! A gente caminha entre montanhas e é muito gostoso.

Caminhei uns 4 km parei pra tomar café num posto de parada de caminhoneiros. Comi um croissant recheado de presunto e queijo, feito na chapa que delícia e um suco de laranja natural. Apreciei a cada mordida, porque hoje a jornada é ir até o Cebreiro e voltar a subir a 1500 m de altitude.

Na sequência passei por uma cidade que havia uma pequena igreja que não resisti e logo entrei, fiz minhas orações do dia pedia Deus que me abençoasse no caminho que nossa senhora fosse nossa minha frente e a proteção sempre do meu anjo São Miguel.

Com as bençãos de Deus eu seguir o caminho muito bem, cantando e rezando, o dia amanheceu e por estar entre as montanhas só vemos a claridade e não só é como sentir as bençãos de Deus, sem precisar velo. Segui o caminho ouvindo o barulho do rio sempre calmo que desce pelas montanhas, e cheguei a cidade de Vega de ValCarse. Que cidade linda. Me senti tão bem ao passar pela cidade. Imagine uma cidade calma… é uma vila na verdade, mas o rio corre que é um córregozinho que vai margiando toda cidade e o barulho da água corrente se houve a todo momento. Em determinados lugares a cidade se divide entre as duas imagens desse riozinho e você pode atravessa-lo a pé.

Imagina no sol quente você colocar os pés nessa água tão cristalina. Que delícia…

Pensei muito na Tânia, imaginei que um dia faremos o Caminho certamente ficaremos nessa cidade, chegaremos mais cedo pra curtir uma tarde em Veja de valcarse, porque aqui compensa muito que delícia de vila de cidadezinha.

Muitas flores, montanhas, rios e matas. Os albergues também tem muita estrutura e aconchego.

Continue o Caminho ladeando o rio e escutando suas águas… meu Deus que delícia. É a melhor música para meus ouvidos, acho que hoje vou dormir com esse barulhinho no coração e na mente.

E o Caminho continua a nos surpreender… muito lindo todas cidadezinhas…passei por Las Herreiras e parei pra tomar um café.

Estou inebriado e maravilhado com esse trecho com essa paisagem. Passei pela árvore dos sonhos, olha que legal, que criatividade. Pessoal pegou uma árvore seca e pendurou ali seu sonhos escritos no papel. Olhem que lindo.

59faecd3-0c39-4e4d-8ac1-d44fb39e1cd8

Passando essa parte bem bucólica do caminho começa uma subida bem acentuada, mas a sua vida toda pela sombra porque estamos caminhando no meio da floresta. Dessa forma fica bem agradável e a gente não sente muito calor nem desgaste da subida. Em vários momentos parava tirava fotos e era bem prazeroso subir caminhando entre as árvores.

Cheguei em La Faba, um povoado bem legal que existe no meio do caminho, uma fonte de água natural e muito gelada. Abasteci nesta fonte e segui viagem. A paisagem é maravilhosa e não sei se as fotos irão conseguir traduzir a beleza dessa etapa do caminho

Estamos quase 1400 m de altura e a visão de mares de morros. Muito bonito muito próximo céu. Determinado momento já comecei a caminhar na província de Galicia, já estou há cerca de 150 km de Santiago.. uhuhu

Dia 25: Cheiro de cerejeira…

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 25 : Ponferrada / Trabadelo

   Tive uma excelente noite de sono e acordei as 4h30 achando que já era hora de caminhar. É incrível como a gente entra numa rotina que as 10h00 todos dormindo todos os dias entre 4h05 já estou acordado.

O albergue era muito bom, com muita estrutura, por isso deixei para organizar as minhas coisas logo pela manhã. Como minhas roupas não tinha um secado, deixei-as no varal fui pega-las bem cedinho. E organizado as coisas, às 6h15 já estava no caminho.

A saída de Ponferrada não tinha muita sinalização, por três vezes tive que parar para procurar a direção correta, como fizeram também outros peregrinos.

Caminhei tranquilo nos 10 km até chegar ao povoado de X e lá tomei o café da manhã. Foi o melhor bocadinho que eu já comi: pão fresco, Ramon crudo, queijo tomate com azeite de oliva com suco de laranja, e já voltei pro caminho num ritmo muito bom, leve e tranquilo.

Cheguei em Villafranca del Bierço às 11h45. Villafranca é uma cidade que surge do nada no meio das montanhas. Incrível que até 100 m da chegada da cidade não era possível avista-la!!! Mas a cidade muito bonita com castelo, igrejas, mesmo sendo pequena, havia pelo menos 4 igrejas bem imponentes.

O sol estava quente, mas apesar disso resolvi seguir do caminho e andar mais 9 km até Trabadelo. Depois de caminhar 5 km. Parei na cidade de Pereje pra comer mais um pouco, mais o suco de laranja, e pé na estrada de novo!

Nesse trecho a gente caminha entre as montanhas. É literalmente caminhar entre os morros de Leão ao lado de um rio, a paisagem é muito bonita apesar do caminho ser do lado da estrada de asfalto, e mesmo quando estamos andando no asfalto é só olhar dos lados e ver as matas, as montanhas e o barulho das águas dos rios que vai dando um alento a caminhada.

Duro é segurar a vontade de entrar no rio nesse calor quente ouvindo barulho das águas. No meio mata dá uma vontade louca de entrar nesse rio.

Durante o Caminho recebi um vídeo da Tânia, fez com Theo e a ísis brincando na cama. Nossa, tão encantador!!! Logo comecei a cantar a canção deles (https://youtu.be/vjA-82CVL4M)

Guiado pelo coração que a música do Theo e da Ísis diz, é o que eu quero! É justamente o que estou buscando agora nesse caminho: toda hora ser guiado pelo coração, pelo Espírito de Deus que opera sobre nós e não pela nossa mente que sempre mente pra gente… então tem tudo a ver a música deles com o Caminho que eu estou fazendo pois quem um dia meu coração pois quem nos guia é o coração.

Durante o trecho de Villafranca até Tradadelo, seguia-se o rio Valcarce .

E 1 km antes de chegar, havia homens pescando no rio, mas dentro do rio!!! Tive muita inveja deles porque depois de caminhar mais de 7h00 no sol quente imagina por os pés no rio e ficar pescando. Que delícia!!!

E na entrada de Trabadelo tinha uma pilha de madeira cerrada, com cheiro muito característico e familiar! Parecia cerejeira, lembrei do meu pai Gerulino… saudade do macho véio também! Quando eu era pequeno e ele chegava em chegava em casa do trabalho com esse cheiro na roupa, cheiro desta madeira! Ele trabalhava numa marcenaria e esse cheiro lembra minha infância quando recebia ele do trabalho! Certeza, é cerejeira mesmo!!! Um beijo saudade

Dia 24: Cruz de Ferro

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 24 : Foncebadon / Ponferrada 

Às 6h00 da manhã já estava pronto para sair. O café-da-manhã foi servido e encontrei com mais alguns amigos logo depois iniciar a caminhada. Avisei a todos que preferia caminhar sozinho por isso me distanciei e comecei a orar do terço.

O Amanhecer do dia foi lindo! Ver o nascer do sol caminhando, orando e carregando as emoções que tinham sido afloradas na noite anterior. Essa parte do caminho é de subida até chegar o seu ponto mais alto da cruz de ferro e cerca de 1500 m de altura.

Quando terminei de orar terço já avistei a Cruz de ferro uma imagem muito bonita. Esperava que era maior, mais imponente, mas não, na minha opinião monumento simples com uma cruz de ferro no alto que em baixo tinha uma monte de pedras que simbolizava alguns fatos, desejos, pessoas ou circunstâncias, enfim sentimentos de muitas pessoas depositados ali representados por pedras. Alguns colocavam terços, e outros sandálias. A sandália representa pessoas que não conseguiram concluir o Caminho até aquela etapa, por isso os amigos traziam a sandália para representa-lo.

Ela é muito emocionante, muitas pessoas choravam, outras não mas percebia-se um sentimento comum, que era o respeito, a introspecção de todo sentimento que se carregava e o que depositava na Cruz de ferro. E ver algumas pedras que simbolizava os sentimentos que tinha vindo a tona até então no caminho, especialmente no dia anterior. É incrível como surgem sentimentos ao caminhar, fatos e pessoas vão vindo em sua mente, que desencadeiam emoções e sentimentos na alma e coração.

Depositei as pedras e me emocionei também ao deixar ali sentimentos que não quero mais: Raiva, medo, tristeza, mágoa, ressentimento, ódio, onipotência… sentimentos que não fazem bem, pesam, não quero carregar porque só trazem peso a minha vida sentimentos que há muito tempo estavam escondidos, foram descongelados e colocados ali pra sempre para que não me acompanhe mais! Aproveitei que tinha um amigo também do Caminho pra tirar umas fotos do momento que eu depositava as pedras.

Feito esse ritual segui em frente! Me senti mais leve, mais grato, quantos sentimentos vinham na minha mente, no momento que coloquei as pedras na Cruz de ferro, Imaginava Jesus derramando seu sangue e deixando todos aqueles sentimentos ali. Como uma nova vida, uma nova fase que começa na minha vida.

Rezei mais uma vez o terço, cantei, chorei, me emocionei e assim fiz a descida de mais de 1000 m.

A Cruz de ferro fica 1500 m de altura, e Ponferrada aonde eu iria dormir estáva cerca de 380 m de altiude. A descida ainda bem íngreme, mas eu orei cantei e de fato me sentir mais leve, mais feliz e cheguei ao meu destino conforme planejado.

Também aprendi a cuidar melhor dos meus pés, e as bolhas praticamente foram curadas. Troquei de meia após 22 km de caminhada e sempre estou atento se houver alguma dor eu coloco compeed. Cheguei a Ponferrada e segui a rotina no albergue Guiana e logo sai pra conhecer a cidade.

Fui à Basílica e lá fiquei por um tempo rezando e agradecendo. Tinha uma imagem linda de nossa senhora e um altar dedicado a São Miguel e obviamente no alto, Jesus Cristo que sempre nos proteja.

Passei também pelo Castelo dos templários que é também uma construção muito bonita, impressionante e impactante.

Experimentei a culinária, um pulpo a galega, com uma salada mista com molho pesto e logo fui dormir. Um dia marcante. Um beijo.

Dia 23: Roupas e coração lavados…

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 23 : Astorga / Foncebadon

 Acordei as 5h30 e logo já coloquei o compeed nos pés, preparei minha mochila, e resolvi despacha-la nesse dia. Evitando carregar mais peso, menos pressão sobre a bolha.

O dia amanheceu muito lindo e pude tirar fotos da Catedral de Astorga ao amanhecer. Essa Catedral tem uma característica interessante, ela possui pedras de tons de cores distintos. Isso porque quando ela foi construída, a jazida de pedra inicialmente utilizada não foi suficiente para construir lá. Então buscaram outra jazida de pedra e que tinha uma cor diferente, parece um tom rosa muito bonito.

Essa é a última etapa em planície, depois já vamos iniciar a subida aos montes de lyon.

O Caminho foi bem tranquilo. De fato o compeed ajudou bastante! O caminho original seria parar em Rabanal do Caminho! Mas já tinha planejado andar mais 5 km até Foncebadon!

Esse último trecho já é em subida nos montes de Leon! A paisagem já muda bastante, já estamos a 1300 m de altitude, e dá para ver o Monte Telemo mais de perto, e neste monte que está a cerca de 2200 m de altura tem as Neves eternas são facilmente vistas!

A subida foi tranquila, e eu a subir devagar. No caminho alguns sentimentos bem antigos vieram a tona, pra ser sincero sentimentos de 40 anos atrás e que me acompanhavam até hoje. Senti com mais força e intensidade, que chorei, e deixei algumas pedras pelo caminho.

Cheguei em Foncebadon bem emocionado, fiz uma rotina diferente e primeiro fui tomar uma cerveja e assistir parte do jogo do Brasil pelo celular do dono do albergue, pois não tinha televisão.

E sentei a mesa com Adrianka, mais dois espanhóis Maria Eugênia e Ramon. Conversávamos, mas eu estava bem mexido, e quando chegou a filha do dono albergue de apenas três anos, comecei a chorar, foi incontrolável, e até o dono do albergue me dar um abraço. Quantas pessoas da mesa também chorava. Eu não sabia porque … se uma saudade muito forte e grande dos meus filhos, ou era conexão com a minha própria criança. E sentindo bem, agora apesar da saudade de casa, acho que é pela minha própria criança rsrs

Depois de um tempo, pedir licença, porque tinha que lavar minhas roupas. Foi quando espanhola me disse “Lave suas roupas agora pois o seu coração já está lavado”

Amanhã é uma etapa bem emocionante porque chegarei a Cruz de ferro local de muita emoção onde as pessoas deixam pedras simbolizando sentimentos, fatos pessoas, desejos, etc . Estou apenas a 1200 m da Cruz de ferro, e creio que já estou em contato com sentimentos, as minhas emoções do meu próprio propósito de leveza e cura interior. E está bem próximo. um beijo

Dia 22: A grande familia

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 22 : San Martin Del Camino / Astorga

 Às 6h00 eu já estava no caminho. Amanheceu um pouco frio, mas logo depois que o sol nasceu já esquentou.

Fiz um teste e foi o primeiro dia que comecei a caminhar com as sandálias. As sandálias são mais confortáveis para os pés, mas não sabia como seria caminhar mais de 25 km e com as duas bolhas na planta do pé. Além disso havia chovido bastante na noite anterior e havia um possas da água no caminho, e se molhar os pés com as sandálias logo teria que parar e calçar novamente as botas. O problema da bolha na planta do pé e que não há como andar sem tocar nela. A Bolha do pé esquerdo já estava boa, mas a do pé direito ainda incomodava bastante. Procurei andar bem devagar. Piano piano, como dizem os italianos…

Depois de 6 km tinha a primeira parada numa cidadezinha chamada Hospital de Orbigo. Parei para tomar um café, e logo em seguida entrou uma amiga peregrina que eu tinha iniciado caminho comigo, feito a primeira etapa de Saint Jean a Roncesvalle. Ela se chamava Adrianka, é da Croácia. Conversamos um pouco e ela perguntou como estava meus pés e logo já me deu dois curativos, na verdade ela tinha um arsenal anti bolhas, com todos os instrumentos necessários, medicamentos e todos os tipos de fita, band-aid etc. Coloquei o curativo nos pés e me sentir melhor, e voltei a caminhar.

O trecho até Astorga era muito plano, e próxima a rodovia. Antes de chegar Astorga, havia uma subida muito forte e na sequência uma cruz que ficava no Alto da montanha e de lá se via Astorga e um vale muito bonito.

Segui o caminho e cheguei em Astorga a 1h da tarde.
O sol estava muito quente, e percebi que andar com sandálias é mais difícil e também um pouco mais lento. Pelo menos para mim!

Fiquei no albergue servas de Maria, albergue municipal cuidado por hospitaleiros, que trabalhavam gratuitamente. O valor de cinco euros para dormir. Segui a rotina do dia, que chamo de lere lere! Rs

O albergue tem uma estrutura muito boa. Sairia para conhecer um pouco Astorga, mas o sol muito quente e preferi ficar tomando uma cerveja.

No final da tarde caiu uma chuva muito forte e assim não pude conhecer totalmente a cidade. A verdade é que a gente chega tão cansado, que apesar dos atrativos a gente não tem vontade alguma de caminhar.

A questão das bolhas ainda me incomodava, então foi numa farmácia e conversei com uma farmacêutica e ela disse que da forma como minha bolha estava eu já poderia usar o compeed! É um curativo bem interessante a base de silicone mas só pode ser colocado quando começa ficar vermelho, ou quando a bolha já estiver sem água. Como estava drenando todos os dias da minha bolha ela achou que eu já poderia colocar o compeed para caminhar.
No Albergue encontrei um brasileiro que havia conhecido no caminho que me chamou para jantar com todos os peregrinos. Fomos à cozinha e era uma festa! Todos os tipos de idiomas tornavam o ambiente muito familiar. A mesa era grande, sentei já fiz amizade com os peregrinos. Uma menina da Romênia havia feito uma espécie de Galinhada, era meio que um risoto e uma Galinhada, mas muito saborosa! Estavam juntos uma menina americana e um russo, além de mim e o outro brasileiro!

2f14325d-51ac-4f4f-8bdf-933c98eb9513

Foi uma grande festa, como é legal todas as culturas sentadas a mesa, e mesmo as pessoas que não falavam o inglês ou espanhol se conseguiam se comunicar. Todos que já haviam comido ofereciam para compartilhar os pratos, Um ambiente sensacional. Demos muitas risadas. Fui dormir com sentimento de uma grande família. Uma grande comunidade.

Dia 21: O retorno

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 21 : Leon / San Martin Del Camino

 As 5h30 da manhã eu já estava de pé! Estava ansioso por voltar a caminhar, e queria saber como ficariam as bolhas dos dois pés. Deixei Leon ao amanhecer, e como é uma cidade grande, demorei cerca de 1h e 1/2 para atravessa-la.

Graças a Deus consegui caminhar bem, e vim refletindo sobre as leituras dos últimos dias que fala sobre a necessidade do perdão, de não pagar o mal com o mal. Ao contrário orar pelos inimigos e se alguém te fizer mal, não retribuir na mesma moeda, desejar o bem para ele e rezar por ele. Essas palavras ficaram no meu coração o caminho todo, vim refletindo sobre elas, e sobre as pessoas que um dia me fizeram mal, ou me magoaram, se ainda não consegui perdoar ou se não consigo rezar por elas. Algumas vieram no meu coração, deixei algumas pedras no caminho simbolizando que não queria, e não iria carregar mais aquela mágoa comigo.

Depois de 11 km de caminhada parei para trocar as meias, porque meias secas são melhores para não piorar as bolhas. Caminhei mais uns 5 km e a bolha do pé direito começou a incomodar mais. Parei no meio do caminho e troquei as botas pela Papet.  Percebi que era melhor caminhar com elas, pois pressionava menos as bolhas. Meus pés “chatos”, que adoram uma havaiana agradeceram! rs

Pendurei minhas botas lado de fora da mochila, mas no meio do caminho uma japonesa também peregrina passou por mim e disse que as botas estavam atrapalhando a minha caminhada, porque ao andar elas balançavam e faziam com que eu perdesse energia na caminhada. Segui o seu conselho, e guardei as botas dentro da mochila, no compartimento separado, e de fato ficou muito melhor a caminhada rendeu mais e a mochila se acomodou melhor nas minhas costas. Mais uns 5 km adiante quase chegando no meu destino, parei para comprar umas frutas e tomar suco de laranja porque o sol já estava quente.

Ao sair da tenda encontrei a japonesa, chamava-se Tomoco, ofereci a ela uma nectarina e agradeci pela dica que me ajudou muito na caminhada. Andei mais 5 km cheguei ao meu destino depois de andar 27 km. Fiquei no albergue Santana,  bem bacana, segui a rotina do dia e fui à missa, uma igreja simples mas como imagem linda de nossa senhora do caminho.

Jantamos todos os peregrinos juntos uma deliciosa Paella, e depois fui dormir com o sentimento de gratidão a Deus por mais um dia de caminhada

 

Dia 20: Leon – Turismo e fé

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 20 : Leon

 León é uma cidade muito, mas muito linda.

Hoje com maior tempo, pude visitar alguns lugares, passear pelas ruas dentro do cento histórico que é cercado por uma muralha.

O ponto alto sem dúvida nenhuma, é a Catedral, uma das mais belas catedrais do mundo.

3d5945f3-f561-425f-bb6b-c4295efd3fd9

Construída no século XIII, e em apenas 50 anos. É de estilo gótico, em formato de cruz, Com a nave central com 90 m de comprimento, e as nave menores com 30 m, e altura de 30 m. A riqueza de detalhes dos vitrais e algo que nos deixa boquiaberto. Não dá para descrever, e creio que as fotos que vou postar aqui também não conseguem traduzir tamanha beleza dessa construção.

No final do dia, fui à missa na própria Catedral, na capela Sagrado Coração de Jesus. Lá havia uma imagem de Nossa Senhora com Jesus nos braços, que também é maravilhosa.

E a leitura do dia, e a homilia do dia foi totalmente relacionada aquilo que quero trabalhar no meu coração nas próximas etapas do caminho: O verdadeiro perdão. Coloco aqui alguns trechos do Evangelho e da homilia de hoje que retratou melhor aquilo que estou dizendo.

Dia 19: Um dia de descanso em Leon

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 19 : Leon

 Novamente acordei cedo. Vida de peregrino é assim mesmo. A gente acostuma acordar cedo, ainda mais que outras pessoas que dividem o quarto com você também acordam.

Tomei café com Alice e com Willem, brincamos demos algumas risadas, e como eu iria sair mais tarde, estava bem tranquilo. Quando foi se despedir de mim, o Wilhelm me abraçou e disse “ Eu tenho certeza que você que você vai caminhar e chegar até Santiago de Compostela, definitivamente “ não teve como não chorar!
A Alice foi a última a sair e também ao abraça lá chorei!
Depois que todos saíram, arrumei as minhas coisas e fui até o ponto de ônibus. Chegando lá encontrei um senhor e perguntei que horas o ônibus passaria. Ele respondeu que em 30 minutos mais ou menos. Fiquei esperando, mas cinco minutos depois, para um carro com uma mulher dirigindo e esse senhor entrou no carro. Eles conversaram, E a mulher saiu do carro e me ofereceu carona até Lion. Fiquei até assustado com tanta gentileza, imagina só, sou estrangeiro, estranho a ela, com mochila nas costas, Sticks e ela oferece carona!
Novamente me emocionei. No caminho ela me perguntou onde queria parar, eu disse que algum lugar que pudesse me orientar sobre as bolhas, porque queria ter certeza que estou fazendo tratamento correto. A viagem não demorou 10 minutos porque estava muito perto. Chegando em Lyon ela parou o carro e me disse que o senhor estava acompanhando queria me mostrar aonde era ambulatório, tinha pessoas que me ajudaria. Naquele momento, eu dei a ela um terco de Nossa Senhora Aparecida, e agradeci muito a gentileza que ela tinha feito . Senti que ela também ficou emocionada e me agradeceu o presente, solidariedade passe a frente.

Fui até o ambulatório e lá eles não poderiam me atender , Então fui a uma farmácia, porque muitos farmacêuticos já estão acostumados a tratar e ver bolhas, o farmacêutico que me atendeu disse que minhas bolhas eram grandes mais normais, que não tinha infecção, e que o tratamento seria ao cuidado de infecção e descanso. A partir daí procurei um hotel, próximo à Catedral, no centro da cidade, para poder andar menos conhecer os lugares turísticos. E foi muito legal, porque encontrei praticamente todos os amigos que conheci durante o caminho. Encontrei a Jodie, o Leo, Claude, Richard e outros que reconheço mas não sei o nome! A toda hora era um hello, Hi, Hola! enfim foi uma festa à tarde. E também fiz amigos novos! Pela primeira vez almocei e jantei, tomei umas boas cervejas, muitas risadas enfim curti!


Fiz uma siesta e as 20:00 fui à missa na igreja de São Marcelo, tinha um altar lindo uma imagem de Maria maravilhosa!! Me chamou muita atenção! Tocou!!  Era Maria chamando para descansar, como em Corrion de Los Condes!


Também tinha um altar com Jesus crucificado feito em 1600!  E muito me chamou atenção também! Fiquei orando ajoelhado em frente à ele! Tem alguns altares e imagens que me atraem muito!! E olha o tema da missa : o Perdão!

0cda29b8-d0e1-4c9a-b9b0-d22517e33406
Deus falando comigo novamente através da palavra!
Que maravilhoso é nosso Deus! E que benção ter Maria como nossa mãe!

Dia 18: Sabedoria e Prudência

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 18 : El Burgo Ranero / Archueja

Estou gravando essa nota um dia depois desse trecho! E para não ficar confuso, vou voltar um pouco atrás! Cheguei em El Burgo Ranero com 2 bolhas, nos 2 pés, e no mesmo lugar, entre o dedão e primeiro dedo pequeno! Um local ruim pois nada cola ali, nem o compeed, nem outro curativo! A bolha do pé esquerdo já estava grande e do direito bem pequena! Fiz o tratamento que sabia, desinfetei, furei com agulha, passei a linha, cortei a linha deixando o dreno, passei álcool iodado, e deixei secar no sol, sem usar sapato! Estavam doloridas, mas a dor era suportável!  Assim, Levantei as 5:30 e as 6 já estava na cafeteria para tomar o café! Lá logo na entrada, havia um verso de um poema de Antônio Machado: “Caminhante: não existe caminho! O caminho se faz ao caminhar “. Muito legal e profundo! Tirei uma foto e segui o caminho!

6c4e0f42-8388-4e03-b3b5-a83d8532fbd0

Essa etapa eram mais 31 km de caminhada! A paisagem não alterava, pois estávamos atravessando a “Masseta” que é como se chama esta região! Como um deserto da Espanha! Ela se iniciou a umas 5 etapas atrás! Muito plana e seca!

Tirei fotos do pôr do sol, rios, de alguns marcos do caminho e seguia num bom ritmo! Já em mais da metade da etapa após oração, comecei a ter alguns sentimentos de raiva, vingança e ódio de algumas pessoas que passaram pela minha vida, diversas fases, diversos momentos. Refletindo sobre esses desejos, esses sentimentos entendi que todos eles tinha uma raiz comum, que eram mágoas ou ressentimentos, por traições  ou ações injustas que as pessoas tinham feito contra mim! Enfim, mágoas e ressentimentos era a raiz de tudo.

Eu confesso que eu tenho uma coleção delas talvez aí uma plantação de pequenas e grandes de diversos tamanhos e formas. Se elas estão lá é porque de uma certa forma eu estou as cultivando. Pedi então a Deus. Que me Curasse e que eu realmente quero ceifar essa plantação, arrancar todas essas árvores de mágoa e ressentimento e dar essa terra para cultivar outros sentimentos, De amor, de perdão, e assim, começar de novo, olhar a vida com mais leveza! Sem pesos, desnecessários! Neste momento, lembrei de uma das freiras do albergue de Santa Maria pela Vitória, que disse “maior peso que carregamos não está na mochila, e sim no nosso coração“

Segui o Caminho pedindo a Deus que durante o caminho me ajudasse as ceifar a plantação sentimentos ruins e cultivar o terreno no meu coração para sentimentos bons, leves e edificantes!

Já era quase meio dia eu ainda estava a 8 km do meu destino planejado! Sol já estava bastante quente, e as duas bolhas dos dois pés começaram a doer muito, pois estava caminhando no asfalto bem quente, que piorava a situação. e eu continuei caminhando e a cerca de 4 km da cidade onde ia ficar, sentir que algo mudou no meu pé direito, já não sentia mais a bolha, mas uma dor mais espalhada. Ela com uma bolha tivesse estourado. Como já estava perto, diminui o passo, e seguir o caminho até o albergue. Chegando lá fui tirar as botas e percebi que de fato a bolha tinha estourado mas não pra fora para os lados, ou seja, ela tinha espalhado para uma área maior chegando até a junção dos dedos. A bolha do pé direito também havia crescido.

Novamente fiz o ritual de limpeza e desinfecção, furar, passar da linha e por fim álcool iodado! Estava doendo muito, mas a dor estava suportável coisa de peregrino!

No albergue, encontrei pessoas de mais idade, um alemão que eu não recordo nome, um holandês chamado Vilhem e uma porto-riquenha chamada Alice!  Eram pessoas muito especiais, de mais idade e que tinha muita experiência de vida, no caminho e de caminhar.

O Holandês contou-nos que ele está fazendo o caminho desde a casa dele na Holanda, e que ele já completou 2600 km de caminhada. Até Santiago irá completar  quase 2900 km. Contou-nos um pouco da vida dele, compartilhou suas histórias, suas viagens. Uma pessoa interessantíssima, amável, forte e muito determinada!

A Alice é um doce de pessoa, já era a quinta vez que ela estava fazendo o caminho, mas ela fazia em diferentes etapas. Ela deu várias dicas de albergues, restaurantes, e trechos do caminho que não poderiam ser perdidos. Quando comecei contar a eles a minha história e mostrei as duas bolhas que tinha no pé, Alice começou com muita doçura a recomendar para eu parar um pouco, e descansar os pés. Que isso também é uma forma de entrar em contato comigo mesmo, E de curtir o Caminho. Ela disse “ viver o caminho, é respeitar e honrar seu corpo e entrar em contato com seus sentimentos e emoções “ apesar de eu poder continuar o caminho ela disse que as bolhas poderiam piorar, e acabar com meu com o Caminho. Sugeriu que eu ficasse em Leon, relaxar e curtisse a cidade que é muito linda e depois voltasse ao caminho. Quando eu disse que se desse, gostaria de passar o meu aniversário com minha família, pois já estava sentindo muitas saudades, ela respondeu “aniversário, dia dos pais, dia das mãe, Natal, são todos os dias, quando  vc está em casa pleno, com sua família e feliz celebrando a vida” e completou” vc está a 8 km de Lyon, tire 2 dias para relaxar seus pés, e amanhã vai de ônibus” para que o esforço de ir a pé ?”

Confesso, que os argumentos dela e a forma como ela falou com tanta doçura me convenceu naquele instante, eu resolvi parar em Leon e ficar dois dias descansando. Ela me deu um abraço tão carinhoso, que ambos começamos a chorar. O Caminho nesse dia, me deu uma mãe afetuosa, carinhosa e que deu conselhos de vida, e um pai aventureiro, forte, determinado.

Agradeço a Deus por ter conhecido essas pessoas e eles fizeram parte da minha vida e do meu caminho

Beijo

Dia 17: Transmutação

O CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA

 Dia 17 : Morantinos / El Burgo Ranero


O dia de hoje Foi muito intenso, fisicamente e emocionalmente, que fica difícil descrever.
Às 6h00 da manhã já iniciei a caminhada, porque eu tinha 30 km pela frente. Mas já amanheci meio mexido, desde que deixei a igreja Santa Maria pela Vitória em Corrion de Los Condes.

Não consegui dormi muito bem a noite, e ao iniciar no caminho já senti uma forte emoção. É difícil descrever o que a gente sente nesses momentos, são momentos de solidão, de stress físico que te faz entrar em contato com suas dores emocionais. E olha que já foram mais de 420 km de caminhada. Nessa etapa passei pelo portal que marca a metade do caminho!
Comecei a lembrar da minha infância, minha adolescência, minha juventude e de pessoas e fatos que foram marcantes em todos os sentidos.  Tanto de dor quanto de alegria. Veio em meu coração um mix de sentimentos que estavam congelados a muitos anos, fatos que eram doloridos mas que tudo bem até então, fatos do que eu tinha conhecimento mas que não tinha ainda tomado a total consciência. Entendo que o conhecimento fica na mente, é narrado, pensado e dito. A consciência é endo, interna, e sentida! E a consciência dos sentimentos me fez por várias vezes chorar durante o caminho.

Determinado momento eu colhi uma flor da cor violeta, que significa Transmutação, carreguei lá comigo e rezei o terço carregando essa flor. O que eu queria era transformar Todos aqueles sentimentos em algo bom, em amor.


Fui deixando várias pedras pelo caminho que simbolizavam sentimentos, pessoas, os fatos que não eram bons e que eu queria deixar para trás. E e no lugar desses fatos queria plantar uma flor, que uma flor nascesse representando o próprio amor, o amor da história, o respeito por tudo que aconteceu e a transformação de tudo em algo bom. Pois de fato isso aconteceu na minha vida, independente dos fatos que não foram bons, a minha vida é muito boa! E tudo que eu tenho, tudo que eu sou, eu agradeço porque é muito bom!


Chegando a 10 km do meu destino, encontrei uma ermita, Que é uma pequena capela, consagrada a nossa senhora. Entrei nessa capela e não teve como conter as lágrimas, chorei muito e agradeci a oportunidade ter vivido tudo isso. E entreguei a flor no altar de nossa senhora junto com outras flores. A imagem de nossa  senhora com o manto azul com as mãos abertas  em direção a mim, E com Rosário na mão consagrou a Deus todos sentimentos que eu havia vivido, E me deu a benção para seguir em paz.

Dali pra frente o 10 km de caminhada, foram de oração, de gratidão e uma música veio ao meu coração: Let it be!! do Paul Mackartney!
Fui cantando até chegar à cidade que pretendia!